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Em 15 anos, Brasil matou uma pessoa a cada dez minutos

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

/ por News Paraíba

São mais de 786 mil pessoas assassinadas, número maior que o das guerras da Síria e do Iraque

Marisa saiu do trabalho no fim da tarde, como fazia todos os dias. Grávida de oito meses, dispensou a caminhada sugerida pelas amigas, pegou um ônibus e chegou ao supermercado minutos antes delas. Dez dias depois de celebrar o Natal, queria aproveitar a anunciada promoção de panetones. Uma tentativa de roubo a um carro-forte, um tiroteio entre assaltantes e seguranças, duas balas que atravessaram intestino, fígado e útero. As amigas chegaram a tempo de ver Marisa entrar na ambulância. Mãe e filho morreram no hospital.

— Quando falam de uma pessoa que morreu com um tiro, você nunca imagina que pode perder alguém da sua casa. Tiro é coisa de confronto com a polícia, é coisa de quem faz algo errado. Pensamos essas coisas. Minha irmã estava no supermercado. Mas era o lugar errado. E a hora errada — diz Margareth Jacinta de Miranda Paula, irmã de Marisa, quase 17 anos depois.

O crime que levou Marisa à morte aconteceu em 3 de janeiro de 2001, em Jacareí, interior de São Paulo. Os quatro assassinatos daquela tarde são parte de uma história ainda mais violenta que se desenvolveria ao longo do século XXI: 786.870 pessoas foram assassinadas no Brasil entre janeiro de 2001 e dezembro de 2015, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Um homicídio a cada dez minutos.

  

 

O levantamento faz parte do projeto "A Guerra do Brasil", que conta ainda com um documentário, reportagens e artigos de especialistas em Segurança Pública. Ao apresentar e dar a dimensão do número de homicídios no Brasil no século, o Globo pretende também propor uma discussão sobre o tema e apontar possíveis soluções.

É um número maior de vítimas do que o identificado em guerras: o Observatório Sírio para os Direitos Humanos registra 331.765 mortes no país entre março de 2011 e julho de 2017; no Iraque, entre 2003 e 2017 — também um período de 15 anos —, foram 268 mil mortes, segundo o projeto “Iraq Body Count” (contagem de mortos no Iraque, em tradução livre). Os números brasileiros são quase três vezes maiores que os iraquianos, em um intervalo de tempo semelhante.

Também é maior do que o número de mortes provocadas por atos terroristas. O projeto Global Terrorism Database contabiliza 238.808 mortes decorrentes de atentados entre 2001 e 2016.

 

As mortes no Brasil em 15 anos superam os assassinatos ocorridos no mesmo período em oito países da América do Sul, somados — o mesmo acontece em relação às 28 nações da União Europeia. O número de homicídios é equivalente à população da Guiana e de João Pessoa, capital da Paraíba — estado onde os assassinatos cresceram 210% neste intervalo de tempo. As 786.870 vidas perdidas representam mais do que as populações de Frankfurt, Sevilla, Seattle, Atenas, Helsinque e Copenhagen, além de significarem uma vez e meia o número de moradores de Lisboa.

 

— É uma tragédia que já nos acompanha há bastante tempo. A segurança pública está fora da agenda política. Existe uma conjunção de problemas: prendemos muito e prendemos mal, e o resultado é a violência que sai das prisões e toma conta das ruas, com as facções do crime organizado; a Justiça é lenta, morosa, demora nove, dez anos, para haver a condenação de quem comete um homicídio; em termos sociais e econômicos, há uma ausência de políticas focalizadas para a prevenção. As pessoas acham que qualquer projeto social e econômico significa prevenção, mas não é verdade, tem que ser direcionado para grupos específicos — aponta o sociólogo Claudio Beato, professor visitante da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e coordenador do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG.

Para Beato, a ineficiência da ação do poder público no combate à criminalidade começa na falta de um sistema de informações, na área de Segurança, capaz de reunir os dados de homicídios e, a partir daí, orientar as ações.

— Esses dados (usados na reportagem) são da Saúde. Como se faz um planejamento com defasagem de um ano? (o Ministério divulga as informações no ano posterior). Na Educação, existe o Ideb, com informações de cada escola; na Economia, há um conjunto de indicadores.

A análise sobre o perfil das vítimas mostra que há um grupo mais vulnerável: os jovens negros ou pardos. Do total dos assassinatos, 56% foram de pessoas com até 29 anos, e 63% das vítimas são negras ou pardas. Os homicídios de homens correspondem a 91% do total, enquanto 70% dos assassinatos foram cometidos com armas de fogo.


A diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, critica a omissão do governo federal na discussão sobre o elevado número de homicídios no país.

— Nunca tivemos uma política nacional de segurança pública, tampouco uma política de redução de homicídios. As políticas bem sucedidas são experiências capitaneadas pelos estados, que dependiam da boa vontade e da liderança de um governador. Mas são iniciativas pontuais, não envolvem todos os poderes

No dia 29 de dezembro de 2015, Wesley, 17 anos, foi à Igreja evangélica onde ia todos os domingos. Ao fim do culto, aguardava na porta quando foi baleado — morreu com a Bíblia na mão, segundo familiares. A família afirma que policiais o confundiram com um traficante; a polícia diz que havia um confronto com criminosos e, em seguida, o jovem foi encontrado ferido. Wesley trabalhava em um depósito de bebidas e ajudava a mãe nas despesas da casa — o filho, a companhia, a renda extra, tudo foi perdido no fim daquele ano.

— Apesar de agora (em dezembro) fazer dois anos, para mim (a morte) foi ontem. É sempre ontem. Parece que está acontecendo (agora). Nunca termina, todos os dias está aí — afirma Maria Quitéria Conceição dos Santos, mãe de Wesley. — A gente sabe que a morte faz parte da vida. Mas não desse jeito.
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