Três policiais militares foram afastados após a ação em um baile funk em Heliópolis, na Zona Sul de São Paulo, que terminou com um homem morto a tiros no último domingo (1º). Conforme o G1 antecipou, moradores da comunidade contestam a versão dos agentes e dizem que não houve confronto. Segundo eles, a PM também limpou a cena do crime.
Segundo o G1, o batalhão da área assumiu a investigação da PM e também vai apurar se os policiais alteraram o local onde os disparos foram feitos. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) já investiga a ocorrência.
A ação policial se deu no mesmo dia em que nove jovens morreram durante outra ação da PM em baile de Paraisópolis, também na Zona Sul da capital.
Os afastados são três PMs da Força Tática que participaram do suposto confronto que acabou com a morte do morador de rua Alberto Góes, de 38 anos. A assessoria da SSP não confirma se os dois PMs que aparecem nas imagens confinando um grupo de jovens numa viela foram afastados ou não. O ouvidor das Polícias pediu o afastamento deles na quarta-feira.
De acordo com o boletim de ocorrência, o homem foi baleado na viela de São Jorge, após correr em direção aos policiais com uma arma em punho e atirar. O BO informa que o homem estava "provavelmente fugindo da ação de dispersão que era feita do outro lado da comunidade [por outra equipe da polícia]" durante o baile funk.
Fotos feitas por moradores mostram viela onde homem foi baleado no dia 1º em Heliópolis — Foto: Arquivo pessoal Fotos feitas por moradores mostram viela onde homem foi baleado no dia 1º em Heliópolis — Foto: Arquivo pessoal
Fotos feitas por moradores mostram viela onde homem foi baleado no dia 1º em Heliópolis — Foto: Arquivo pessoal
No boletim também consta que:
“o local [dos disparos] foi totalmente prejudicado em razão de um cano furado provavelmente por um disparo, que provocou um grande vazamento de água que arrastou vestígios”;
"outro prejuízo para a preservação se deu por conta da atuação dos bombeiros que entraram no beco e realizaram procedimentos de praxe";
um sargento desarmou o homem morto, guardou o armamento consigo e o apresentou à delegada, que determinou que "realimentasse a arma apreendida e a recolocasse de volta ao local da forma que a encontrara".
Trecho do boletim de ocorrência sobre a morte de homem baleado por policiais durante ação em baile funk de Heliópolis, em São Paulo — Foto: Reprodução Trecho do boletim de ocorrência sobre a morte de homem baleado por policiais durante ação em baile funk de Heliópolis, em São Paulo — Foto: Reprodução
Trecho do boletim de ocorrência sobre a morte de homem baleado por policiais durante ação em baile funk de Heliópolis, em São Paulo — Foto: Reprodução
Moradores de Heliópolis ouvidos pelo G1, no entanto, contestam a versão da polícia sobre o momento dos disparos e afirmam que o homem foi levado para o beco por PMs, dentro de uma viatura, sem troca de tiros. Um dos moradores contou que, após retirar o homem de dentro do carro, a polícia efetuou os tiros no mesmo instante em que era disparada bomba de efeito moral.
Ainda segundo os moradores, nenhum cano foi estourado na viela, e policiais alteraram a cena do crime limpando o local.
“Tiraram o menino da viatura, levaram para o beco e atiraram no menino. Depois lavaram o beco antes da perícia chegar”, disse um morador que não quis se identificar por questão de segurança.
Segundo os policias, o homem baleado foi socorrido com vida após a suposta troca de tiros com policiais e encaminhado para o pronto socorro do Hospital Heliópolis. Uma mulher que mora na comunidade, no entanto, já havia relatado para a TV Globo que o corpo do homem ficou no mesmo local até a manhã de domingo, não tendo sido levado ao hospital com vida. (Veja o vídeo abaixo)
"Ia dar sete horas da manhã e o corpo do menino jogado para dentro do beco. E eles [policias] estavam fumando cigarro, conversando, sorrindo. Não estavam sentindo nenhuma dor pela morte do jovem", disse a moradora.
“Eu vi quando realizaram a execução, eles tiraram a vítima de dentro da viatura ainda com vida e levaram pro beco, efetuaram um disparo de bomba de efeito moral e em seguida efetuaram um disparo com arma de fogo, que era pra ninguém ouvir o barulho do tiro e não ter como provar. Eles lavaram o beco antes da perícia chegar”, contou outra moradora.
Heliópolis cria 'observatório da quebrada' após relatos de violência policial
Na manhã desta sexta-feira (6), o Ouvidor das Polícias, Benedito Mariano, informou que solicitou três laudos à Polícia Técnica Científica.
“Solicitei o laudo de local, o laudo balístico porque os policiais têm a versão de que houve um confronto então deve ter sido recolhido armas dos policiais e da vítima, e o laudo necroscópico para indicar por onde entraram os projéteis na vítima”, explica Mariano.
O Ouvidor afirma que o laudo de local é capaz de confirmar se a versão dos policiais é verdadeira. “No laudo de local, a Perícia vai me dizer que ficou prejudicado. Agora, evidentemente, que o corregedor vai ter que apurar com detalhes essa versão de que foi mudada a cena do crime porque, se aconteceu, é grave”.
O ideal, para Mariano, além do laudo de local, é que os policiais envolvidos na ação apresentem fotos e documentos que confirmem que a água que lavou o local realmente foi proveniente de um cano estourado durante o confronto.
“Se (os policiais) tiver dificuldade de apresentar foto, que apresente testemunhas da comunidade para confirmar que havia uma situação que impediu o laudo de local”, afirma Mariano.
Procurada pelo G1, a Secretaria de Segurança Pública afirmou por meio de nota que “todas as circunstâncias relativas à ocorrência em Heliópolis são apuradas pela Polícia Civil (95º DP) e pela Corregedoria da Polícia Militar. O DHPP instaurou inquérito para apurar a morte decorrente de intervenção policial ocorrida no dia 1º de dezembro”.
Após a publicação da reportagem, a pasta acrescentou em nova nota que "o homem foi socorrido pela UR 01111 do Corpo de Bombeiros, que saiu do local dos fatos por volta das 4h em direção ao Hospital Heliópolis. As condutas dos policiais citados no boletim de ocorrência também são investigadas".
A respeito da retirada da arma que consta no Boletim de Ocorrência, o sindicato dos peritos criminais do estado diz que a arma não deveria ter sido retirada do local do crime. "Isso está está totalmente incorreto, não deveria ter sido, deveria ter ficado na delegacia", disse Eduardo Becker, presidente do sindicato.
PM alega ter sido hostilizada em baile
Os policiais militares afirmaram que no domingo, antes de o homem ser baleado e morto, entraram em Heliópolis ao perseguir um rapaz em uma motocicleta que tentou fugir para o interior da comunidade. Essa informação também consta do boletim de ocorrência.
Segundo eles, quando se aproximaram da rua onde acontecia o “pancadão” teriam sido “hostilizados e atacados com pedradas e garrafadas” e, por isso, utilizaram “munições químicas para dispersar a multidão e fazer cessar as agressões".
Ainda de acordo com a versão da polícia contada no boletim de ocorrência, diante da correria e do ataque a policiais feito por quem estava no baile, PMs começaram a "averiguar vielas" para garantir a segurança do local. Neste momento, na versão da polícia, que agentes se depararam com o homem que acabou baleado e morto.
Vídeo agressões
Um vídeo também mostra policiais agredindo jovens com cassetetes em uma viela. Sobre as imagens em que os policiais aparecem batendo nas pessoas, o porta-voz da PM, tenente-coronel Emerson Massera, afirma que “o que sugere as imagens é que as pessoas não tinham para onde fugir e os policiais não observaram técnicas”. “A PM vai analisar essas imagens”.
Na manhã da quarta-feira (4), a Ouvidoria da Polícia entrou com pedido de afastamento dos policiais que aparecem agredindo e encurralando as pessoas em uma viela durante o baile funk em Heliópolis.
“São imagens de agressão e abuso”, afirmou o ouvidor da Polícia, Benedito Mariano.
